Fev 05

Brasil: o país do futuro?

No último 27 de janeiro, o presidente dos EUA Barack Obama dirigiu-se ao Congresso americano para expor o estado da União (State of the Union).

A seção 3 do Artigo II da Constituição dos Estados Unidos, que dispõe sobre o Poder Executivo, impõe ao presidente que, de tempos em tempos, informe ao Congresso o estado da união, recomendando as medidas que julgar necessárias ("He shall from time to time give to the Congress Information of the State of the Union, and recommend to their Consideration such Measures as he shall judge necessary and expedient;").

Em outras palavras, o Estado da União tem por finalidade não apenas a de expor as condições do país e da nação, mas, com maior importância política, apontar a agenda legislativa do ano que se inicia.

O primeiro Estado da União foi apresentado pessoalmente em 8 de janeiro de 1790 pelo presidente George Washington,  numa tradição que foi interrompida em 1801 pelo presidente Thomas Jefferson. Coube ao presidente Woodrow Wilson o resgate da tradição que, muito embora tenha sofrido outras tantas indas e vindas, firmou-se no sentido da apresentação pessoal pelo presidente dos Estados Unidos.

Inicialmente denominado "Mensagem Anual do Presidente ao Congresso" (o termo State of the Union foi usado pela primeira vez em 1934, pelo presidente Franklin D. Roosevelt), o Estado da União tem sua versão tropical prevista no artigo 84, inciso XI, da Constituição de 1988:

"Art. 84. Compete privativamente ao Presidente da República: (...) XI - remeter mensagem e plano de governo ao Congresso Nacional por ocasião da abertura da sessão legislativa, expondo a situação do País e solicitando as providências que julgar necessárias;"

Sem querer chamar a atenção para o fato de a pré-candidata já candidata ser não apenas o contínuo que levou a mensagem ao Congresso neste ano de 2010, mas a secretária que realizou sua leitura perante todas as televisões brasileiras, retorno o foco para o "State of the Union" apresentado pelo presidente Barack Obama no dia 27.

Lembro de ter acompanhado na CNN a contagem regressiva de uma hora para o início do discurso, que se daria aproximadamente a meia-noite nohorário de Brasília.

Para um presidente afro-descendente, de origem pobre, discurso conciliador e agraciado com o Nobel da paz, certamente um Brasil em plena ascenção econômica e desenvolvimentista não passaria despercebido em sua agenda legislativa.

Ao mencionar preocupação concorrencial com a china (que mereceu duas citações no discurso) ou com a India, abordando temas como crescimento econômico, investimento em infra-estrutura e energia limpa, curiosamente o Brasil foi, (como diriam os jovens) tipo assim, esquecido.

Cito aqui o trecho:

"You see, Washington has been telling us to wait for decades, even as the problems have grown worse.  Meanwhile, China is not waiting to revamp its economy.  Germany is not waiting.  India is not waiting.  These nations -- they're not standing still.  These nations aren't playing for second place.  They're putting more emphasis on math and science.  They're rebuilding their infrastructure.  They're making serious investments in clean energy because they want those jobs.  Well, I do not accept second place for the United States of America."

Curioso que o presidente dito mais sensível e preparado, do país que se autodenomina "líder do mundo livre", tenha esquecido de um pequenino país escondido na América Latina, que apresenta um dos únicos programas do mundo com verdadeira eficiencia na geração de energia alternativa limpa e barata; que descobriu petróleo onde nenhuma empresa exceto a Petrobrás poderia descobrir; que se manteve firme durante a maior crise econômica mundial do pós-segunda guerra; que vem ganhando espaço nas questões internacionais relativas a meio ambiente e direitos humanos; dentre outras tantas insignificâncias.

No momento em que o Brasil, sob os olhares de todo o mundo, comanda com sucesso as forças de paz da ONU no Haiti, dando exemplo ao mundo de sua nova estabilidade econômica suprapartidária, renovando suas forças armadas e afirmando, cada vez mais, a vitalidade de sua democracia, o presidente dos EUA simplesmente "esqueceu" desse insignificante ator internacional chamado BRAZIL.

A mim parece que a omissão forçada transparece o maior destaque de todo o State of the Union de 2010. Reflete uma preocupação com o crescimento do Brasil no cenário internacional, em razão de seu crescimento e estabilização interna.

Ou talvez o receio de que a frase inocente e voltada para atributos afetos apenas à questão da popularidade (He is The Man - Ele é o cara), tenha de dar espaço ao reconhecimento de que THIS IS THE COUNTRY.

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