Fev 07

Ainda o populismo...

 

  

 O Estadão publicou hoje artigo do presidente Fernando Henrique Cardoso, intitulado "Sem medo do passado".

Não sei se é por causa da minha formação acadêmica, mas, no que diz respeito a discursos políticos, guardo a tendência de dar mais valor a dados do que a opiniões.

Em outras palavras, creio que as conclusões extraídas a partir da observação, experimentação e combinação de informações resultantes de pesquisas sérias, apoiadas em métodos consagrados pela comunidade científica, são muito mais confiáveis do que as opiniões construídas com a troca de falácias em conversas de boteco (não que conversas etílicas também não ocorram em palácios na Capital da República).

Pois bem, os dados apontados pelo Estadão reproduzem os registros oficiais, e só podem ser refutados em palanques populistas com o uso de palavras de ordem há muito afastadas do mundo real. Eis algumas das minhas preferidas: "Nunca antes na história desse país", "Fora FMI", "Não à privatização", "Estão vendendo o nosso país", "Abaixo o neoliberalismo", "Imperialismo americano".

Não fosse a política econômica, a estabilidade da moeda, o acréscimo de recursos nas reservas monetárias e as inovações legislativas dos anos FHC, nenhum avanço social poderia ter sido feito pela turma do PT, sem que o país fosse levado para o mesmo território em que se encontram nossos vizinhos da América Latina.

Não por menos que a EFE noticiou hoje a escalação, para a defesa do projeto vermelho no Brasil, do presidente venezuelano Hugo Chapolin Chavez.

"Neste ano há eleições no Brasil e temos certeza de que o império americano vai apostar tudo na direita brasileira, para ter desde 1º de janeiro do ano que vem um Governo subordinado às ordens americanas. Isso seria nefasto para a união da América do Sul", disse o capitão do time formado pelos presidentes da Bolivia, Equador e Venezuela.

De novo o imperialismo americano.

Talvez por isso é que hoje tenha me deparado com o comentário de um lunático, que bradou no twitter sua teoria revolucionária: Fidel Castro é um agente da CIA, que só será revelado após sua morte.

Voltemos ao Chapolin Vermelho...

O presidente venezuelano disse que Lula "é aliado dos povos da América, dos povos progressistas" e que tem "grande esperança que o Governo de Luiz Inácio Lula da Silva, que não se subordinou às ordens do império ianque e foi nosso aliado, continue seu curso, continue seu ritmo".

Não poderia ser diferente. Sem o apoio de Lula, a Venezuela jamais teria sido aceita no Mercosul, já que a afirmação das liberdades democráticas (imprensa, oposição, etc) é condição indispensável para o ingresso no bloco.

O ingresso da Venezuela no Mercosul, principalmente com o agravamento da crise econômica daquele país, possibilita um palanque internacional para o líder bolivariano.  

E voltamos ao palanque e ao populismo. Sobre o tema, aliás, recomendo a leitura de interessante dissertação de mestrado apresentada na PUC/SP pelo professor Rodrigo Fernandes de Morais Ferreira, intitulada "Mercosul e populismo: a cláusula democrática como pressuposto jurídico para ingresso no bloco". De igual modo, mas com conteúdo muito mais singelo, sugiro a leitura do artigo FHC, Lula e o populismo na política brasileira, que escrevi em fevereiro de 2005 e que em nada perdeu sua essência (disponível aqui no site).

O problema do discurso de palanque é a falta de compromisso com a história e com as gerações futuras.

Lula ignora a censura à imprensa na Venezuela do mesmo modo que ignora a violação dos direitos humanos na china (foi ele quem defendeu o ingresso da China na OMC) e o apoio ao terrorismo no Irã.

Apoia a filmagem enganosa, com recursos públicos, de uma biografia de ficção científica, ignorando a atenção que a história lhe tem reservada como o primeiro presidente da República semi-analfabeto.

Todo esse quadro me leva a acreditar que nas próximas eleições não estaremos decidindo entre pessoas. Estaremos decidindo se queremos ser como a Venezuela, o Equador ou a Bolívia. Se queremos fazer história ou simplesmente contar estórias. Se Fidel Castro é agente da CIA, ou se precisamos estimular mais a educação e elevar o nível do debate público em nosso país.

  

 

Comentários  

 
+1 #1 07/02/2010 19:45
Boa notícia professor, estarei colocando esse blog nos meus favoritos, quero ver o circo pegar fogo. PS: O site ficou muito maneiro parabéns pela organização e estruturação do site ficou maneirissimo.
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