Por que alguém seria apaixonado por Brasília?

Erick Vidigal

Doutor em Direito das Relações Sociais pela PUC/SP. Professor dos cursos de graduação e pós-graduação em Direito do Centro Universitário de Brasília – UniCEUB.

A pergunta que aparece no título me foi dirigida por um seguidor do site de relacionamentos sociais twitter, e certamente faz referência à forma como me apresento na internet [professor universitário, ativista político e apaixonado por Brasília e pelo Brasil].

É triste reconhecer que, ao completar 53 anos, Brasília ainda não alcançou os corações dos brasileiros, cumprindo, assim, sua principal finalidade: unir a nação.

Os mais apressados diriam que isso se deu por culpa dos políticos, dos escândalos e da corrupção.

Para esses formulo a seguinte pergunta: quantos escândalos nacionais tiveram por protagonistas políticos de Brasília ou mesmo o povo de nossa cidade?

Brasília recebe a cada quatro anos 513 novos Deputados Federais e renova parte dos 81 Senadores da República. Desses, apenas oito Deputados e 3 Senadores representam, respectivamente, nossa população e nossa unidade federativa [Distrito Federal].

O Distrito Federal jamais elegeu um presidente da República ou teve um de seus representantes presidindo o Senado ou a Câmara dos Deputados.

Também não vemos representantes do Distrito Federal dirigindo os melhores ministérios, ou mesmo liderando os partidos de maior expressão no congresso.

E o que dizer do Banco do Brasil, da Caixa Econômica Federal, do Banco Central ou da Petrobrás? Quantos políticos do Distrito Federal já presidiram essas instituições?

A rejeição coletiva à nossa Capital é, em verdade, uma repulsa dirigida à classe que protagoniza a política nacional, o que significa dizer que não são os brasilienses – ou mesmo a nossa cidade – os reponsáveis diretos pelas crises que tanto prejudicam e incomodam o país.

Até mesmo em nossa única exceção – o caso do governador Arruda – o episódio serviu para demonstrar, de forma jamais vista na República, o pleno funcionamento das instituições públicas sérias que se hospedam em nossa cidade, como o Supremo Tribunal Federal, o Superior Tribunal de Justiça, a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal.

Em outras palavras, no Distrito Federal a lei, com frequência, mais cedo do que tarde, é sempre cumprida.

Mas por que razão Brasília é sempre lembrada como sinônimo de escândalo, de corrupção e de tudo o que não presta?

A resposta está na política e em alguns de seus instrumentos de controle, como a alienação cultural e a propaganda negativa.

Desde o seu nascimento Brasília vivencia o papel de bode expiatório dos pecados alheios. Mesmo para os da minha geração é fácil imaginar esse processo, se tomarmos como ponto de partida o fato de que, antes da construção de Brasília, o Rio de Janeiro era a Capital. A cidade maravilhosa, com suas belas mulheres, praias e com todo o fervor da vida cultural que lá se instalava. Uma espécie de europa tupiniquim, que levava os nobres a vestirem fraque e usar cartola, reproduzindo hábitos nada adequados ao clima tropical, apenas para afirmar o “glamour” de ser carioca.

Em meio a toda essa tranquilidade e prazer, o poder político usurpado da Coroa permanecia livre para fazer e desfazer, sem enfrentar qualquer indignação por parte do povo do litoral.

Crise após crise, a instabilidade das instituições públicas tornou-se uma constante [para uma república nascida de um golpe militar, nada mais natural do que a edição de sucessivas constituições, seguidas de nova instabilidade e novos golpes de estado].

A falta de envolvimento político por parte dos cidadãos sempre abre espaço para a construção dos mitos de conveniência, aqueles que, por seu envolvimento direto e por seu talento natural de falar às massas, acabam por ser elevados à categoria de um cristo, de um salvador, passando a gozar do apoio popular, não importa o grau de sua ganância ou os apontamentos de sua agenda oculta.

Foi assim com Getúlio Vargas e com Jânio Quadros. E é assim nos dias atuais.

Revisitando o banco de nomes de nossos salvadores, um nome em especial está associado à propaganda negativa de Brasília: o do jornalista Carlos Lacerda.

Com sua voz estrondosa – lembrando o deus nórdico do trovão – o Thor carioca jamais poupou ataques à Brasília, fosse na tribuna da Câmara dos Deputados, fosse em seu programa de rádio, onde usava seu espaço na mídia para influenciar as massas deslumbradas. E tudo apenas para fazer oposição ao seu maior rival na política, o presidente bossa nova, Juscelino Kubitschek.

Brasília nasceu assim, debaixo de incansáveis ataques, tanto da classe política, que não queria ver o sucesso do presidente JK [e que só aprovou a construção de Brasília por acreditar que ele não seria capaz de construí-la], como da classe popular carioca, que perderia o status de morador da Capital da República e ficaria apenas com as favelas, a praia e com a bossa nova.

As acusações de desvio de dinheiro público com a construção da Capital, lideradas pelo Deputado Carlos Lacerda, podem ser tidas como a primeira campanha de difamação em massa de nossa amada Brasília, criando no imaginário popular a idéia de que a cidade teria sido construída no meio do nada somente para a corrupção reinar livre do controle da população.

Os ataques de Lacerda foram tão ferozes, que abalaram todo o processo democrático instalado nos anos JK, abrindo espaço para novo golpe militar. A ironia repousa no fato de o mesmo Lacerda que insuflou os militares vir, tempos depois, a ser o Lacerda que iria propor a JK uma aliança renovadora.

Saldo da guerra: a honra de Brasília.

A pergunta que dá título a este artigo é muito oportuna, pois nesse ano comemoraremos os 53 anos de nossa Capital, não obstante o significado de Brasília permaneça desconhecido para a quase totalidade dos brasileiros.

A Brasília física tinha por finalidade integrar todas as regiões de um Brasil com dimensões continentais, além de proteger a Capital do País no sentido da estratégia militar. Nesse aspecto, sua inauguração cumpriu com êxito a proposta originária.

Ocorre, porém, que Brasília foi idealizada para ser muito mais que isso. Brasília é a Capital do país, é a filha e a mãe de todos os brasileiros. Foi construída a partir do sonho de um homem, que contagiou homens de todo o país que para cá se deslocaram a fim de construir um lugar onde a esperança sempre estaria viva.

Os candangos, como é chamada essa gente valorosa, vieram para o meio do nada, com suas famílias, para construir, trabalhando dia e noite, a capital da esperança.

A cidade dos mil dias não é só uma cidade, é uma poesia declamada em meio ao planalto central. É o coração e o cérebro do país. Merecedora, portanto, do amor de todos os brasileiros.

A forma pela qual se deu nossa independência (sem guerras ou ideais), a proclamação de nossa República (golpe militar), e a falta de guerras expressivas que pudessem unir nosso povo em torno de um único ideal, privou os brasileiros do sentimento de nação.

Nação é a motivação de ordem psicológica que existe por trás da tríade governo/povo/território e que corresponde a um apanhado de valores e aspirações comuns a todos os membros de uma dada sociedade.

Esse laço emotivo que une os indivíduos em um sentimento único é tão forte, que persiste mesmo diante da perda do território ou da dissolução de um governo. É o sentimento que une os homens e os torna uma nação.

O que seria a nação brasileira? Qual o sentimento que nos une a ponto de superarmos qualquer diferença e nos apresentarmos para o mundo como brasileiros? O futebol?

Brasília foi construída pelo sangue, suor e lágrimas dos nordestinos, nortistas, goianos, mineiros, paulistas, gaúchos, e muitos outros. Foi erguida no meio do nada, numa terra vermelha e fina que chamamos barro, num clima seco e numa vegetação diferente chamada cerrado. E isso tudo em mil dias.

À época de sua construção, o Brasil experimentava uma sensação de otimismo, um êxtase coletivo que seria a primeira centelha para o despertar de nossa vocação para o mundo. Era o início do fim do complexo de inferioridade.

Claro que essa sensação voltaria na década de 80, com a abertura política. De tanto atacarem o governo militar, ridicularizando sua gestão com letras de músicas ousadas e inteligentes, alguns artistas não perceberam a hora de parar e chegaram ao absurdo de ensinar às nossas crianças, por exemplo, que a foca americana é rica, que a foca francesa é chique e que a foca brasileira, coitadinha, caiu de fome sem sequer apresentar seu show.

Brasília não é a causa da corrupção na política brasileira. Brasília apenas hospeda a classe política que é enviada para cá, a cada quatro anos, pelos outros estados.

É triste saber que quando os brasilienses visitam outras cidades são expostos a todos os tipos de piadas e brincadeiras ofensivas, como se todos nós fossemos funcionários fantasmas do senado ou recebêssemos passagens aéreas da Câmara dos Deputados.

Os funcionários públicos que gozavam de regalias eram, em sua maioria, os oriundos do Rio de Janeiro, que para deixarem as praias e se mudarem para a nova Capital exigiram regalias, como apartamento funcional, salário em dobro, aposentadoria integral, etc… Esses, em sua maioria, foram alcançados pela caça aos marajás do governo Collor.

Os servidores públicos atuais, por força constitucional, recebem seus vencimentos no limite do teto salarial. Os funcionários fantasmas e os supersalários eventualmente descobertos não são um privilégio do Senado ou da Câmara. Existem nos governos do Estado do Maranhão, do Rio de Janeiro, do Rio Grande do Sul, dentre outros. São quase regra nas administrações municipais e, mesmo no episódio Arruda, não se viu um caso semelhante no âmbito do Distrito Federal.

Em nossa cidade não há preconceito de cor, naturalidade, sexo ou raça. Os brasilienses não têm sotaque, tomam chimarrão (RS) e comem feijoada (RJ). Adoram tutu à mineira (MG) e pato no tucupi (PA). Muitos têm redes em suas casas e apartamentos (NE) e apreciam um bom vinho. Surfam no Lago Paranoá, pulam de asa delta e têm seu próprio clássico do futebol: Gama x Brasiliense. Daqui saíram grandes nomes da música popular e do rock nacional.

Por tudo isso, e por muito mais, é que a pergunta a ser feita deve ser “por que alguém não seria apaixonado por Brasília?”.

O que acontece na Praça dos Três Poderes não é culpa de Brasília, e incomoda aos brasilienses de modo muito maior do que acontece com os demais brasileiros, pois ocorre no local em que moramos. São nossos impostos que mantém a cidade limpa, segura e funcional, para servir de anfitriã aos representantes dos outros estados. Não podemos receber a repulsa dos brasileiros, pois também sofremos com eles e por eles.

Brasília é isso… e muito mais que isso. Um lugar onde as diferenças se tornam uma coisa só, e onde a esperança no povo brasileiro permanece viva em cada prédio erguido pelos braços dos candangos.

Ou como melhor colocou o nosso fundador JK:

“Brasília é a manifestação inequívoca de fé na capacidade realizadora dos brasileiros, triunfo de espírito pioneiro, prova de confiança na grandeza deste país, ruptura completa com a rotina e o compromisso.”

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